Quarta-feira, 3 de Fevereiro de 2010

Não é mau humor. É sem máscara.

 

É o fazer qualquer coisa e ir logo pedir desculpa, mesmo que a culpa não tenha sido minha, mas porque detesto estar chateada então prefiro que tudo corra como normalmente, parece que tenho medo das ondas e de me molhar, e dos salpicos, que se não sou então ninguém é um vidrinho, ou se for, que se quebre e leve os cacos porque cada vez tenho menos paciência para andar com sapatos cor-de-rosa atrás de ninguém, ah mas as pessoas não mudam, então não mudam, o meu cor-de-rosa foi-se e não vejo grandes esperanças que volte, foi-se simplesmente porque deixei de acreditar nele assim tão vivo, e agora que caralho, não se volta a acreditar muito numa coisa só porque se quer, nem no carregar no inbox de 15 em 15 minutos a ver se chega alguma coisa, que nem sabemos bem o que queremos que chegue, e afinal o amor é uma coisa que dá trabalho, e é melhor esperar pelo mail amanhã, e isso ninguém me explicou quando lia os livros de princesas e acreditei que podia ser uma, e a merda das pequenas coisas que se faz que ninguém vê e então as coisas grandes, as coisas grandes, tenho que estar sempre contente com as coisas pequenas, parece que não há mais tamanhos e se calhar já não há mesmo, eu é que visto o L e sei que há mais para a frente e mais para trás, aliás não tenho paciência para todas essas filhas da puta que têm mais de 1,70 e pesam 55kg, com boa roupa comprada em bons sítios e cabelo liso que não me apareçam à frente a dizer que têm que perder qualquer coisa num sítio qualquer do corpo, porque dá-me o real instinto assassino de as deitar numa marquesa de spa, pegar numa faca da minha cozinha, fazer covinhas nas pernas e rabo ausentes e dizer ‘estás a ver minha grande puta, agora já tens celulite’ porque se não forem essas mulheres, o que é que sobra? Tipo, eu?, a mim é que nunca me chegou à secretária um ramo de flores entregue por um estafeta, só vi isso a acontecer uma dúzia de vezes bem à frente dos olhos e sempre a essas putas, e à primeira pensar que haveria alguma possibilidade de ser para mim, mas afinal não, o romantismo morava sempre na secretária ao lado e essas putas é que têm direito a essas coisas, mas sempre muito amorosas distribuíam uma florzinha pelo mulherio que tinha visto passar, incluindo eu, pois claro, e à terceira vez já mal levantava os olhos para ver bem de que tamanho era o bouquet, mais vale fazer de conta que se está a aviar os emails subitamente urgentíssimos e engolir qualquer coisa azeda que se tenha começado a formar na saliva do que sequer pensar em admitir que nunca na vida isto vai acontecer a mim, mais uma no meio do mulherio que apanha o metro todos os dias, e que não tem paciência para por saltos altos porque trabalha num sítio onde o que se quer é que se seja um bocado burra, não tanto porque convém que faça qualquer coisinha, mas o suficiente para ir por coisinhas em cima das mesas só porque é menina, só porque é pequena, e não vai dizer que não, não tem interesse absolutamente nenhum, não quero saber, não me digam, não quero ouvir, não quero fazer, como se ter nascido com menos aqueles 20cm fosse o suficiente, mas que até é muito jeitosinha, aliás sabe fazer coisas na cozinha que permitem que um dia a família se alimente bem, e que caralho, sou aquela amorosa e queridinha das relações estáveis, que todos – sem excepção – dizem que sou a mulher da vida deles e durante uns tempos achei que isso era uma coisa boa, agora começo a ter nojo dessa frase porque eu já disse que o cor-de-rosa se foi embora?, e deve significar que é só porque já sei o nome que quero chamar à minha primeira filha há anos – será Sofia e é um nome decente por isso vai ser este porque eu quero - e procuro que as refeições tenham sempre sopa, legumes ou salada, de maneiras que vou sendo, vou estando, vai-se dizendo, vai-se andando, até ao dia em que acordam e lhes digo que não dá mais, tenho outro, e é um ai Jesus meses a fio que vão mudar, vão mudar, eu é que sou, eu é que é, pois, eu é que sou aquela que quando esmorece vai deixando escapar o que quer que lhe aconteça, o que gostaria que lhe fosse feito, ops caralho dei como exemplo a das flores na secretária, pronto esta já se foi e não volta, a idiota com a perfeita noção que se está a enganar a si mesma mas que apesar de tudo lhe sabe bem aqueles miminhos, ainda que arquitectados por ela, mas e a vidinha aparentemente vai correndo bem porque eu vou deixando que corra, vou tentando fazer de conta que se está bem assim, porque o pânico de ficar sozinha é sempre maior do que a vidinha, de maneiras que não me posso queixar, cada um deita-se na cama que faz, e eu na maioria das vezes deito-me na cama que faço, em vez de ser como a maioria das putas que sai da casa dos pais sem saber que medida de arroz se usa, mas que por isso é tão adorável, tão desculpável, tão promissora, tão queridamente desastrada e eu sou só aquilo que sou e pronto, sem promessas, sem descobertas, sem aparelho nos dentes, a saber refogar a carne, sem possibilidades de se mostrar uma revelação tão positiva e que paixão que isso desperta, efectivamente com problemas em encontrar um par de calças de ganga que me sirvam, e sair de todas as lojas a pensar que um dia talvez, na próxima colecção quem sabe, e ter que adiar todos os dias qualquer coisinha para um dia, um dia, um dia, caralho, como se ontem e hoje e amanhã não fossem também um dia, e no meio destes dias que nunca mais são vai-se perdendo quantos foram e um dia grito porque também sei gritar, e grito também nas lojas que visto o 42 sim, 40 em alguns modelos, e que não é preciso insistirem que aquilo me serve porque não serve não, garanto que sei que não serve, mas afinal olha a porra quem vai comprar sou eu ou a menina, e é o preferir dar-me bem com toda a gente do que mandar as pessoas à merda quando bem precisam de lá ir, porque deixo tantas e tantas vezes que me colem um post-it na testa a dizer ‘estúpida’ só porque acho é preferível isso a confrontos directos e o resultado, vou a ver, é tornar-me invisível um par de dias depois de ter saído dos radares, credo, que insignificância, e deixo aos poucos de ter paciência para ter que perceber, perceber, perceber, perceber, perceber, não quero mais perceber mais coisa nenhuma, que esse verbo já me tolhe os movimentos e o telemóvel só me mandar mensagens do meo, de ofertas, do raio que os partam, se quiser que as pessoas se lembrem de mim tenho que ser sempre eu a dizer o que quer que seja, e ó como estás, e ó o que é feito de ti, e ó queres ir tomar um café, por isso se sou tão dispensável dispensem-me de vez, e de esconder o meu mau humor porque há dias em que me apetece ir dançar até as 6 da manhã e não há meio, parece-me que nunca mais haverá meio a não ser que vá sozinha porquê, porque com quem eu eventualmente iria já ‘passou essa fase’, pois é, todas as pessoas já passaram a fase, as fases, disto e daquilo, e eu não, tenho essas fases entaladas na garganta, todas, por ordem, tamanho, feitio, cores, e parece-me que assim hão-de estar para o resto dos meus dias de mulher, como passei a detestar esta palavra, juro que ser mais cabra me haveria de abanar a vida.
de J às 15:14
| Diz-me
4 comentários:
De B'Rose a 3 de Fevereiro de 2010 às 18:30
Oh minha querida, não sei se isto serve de consolo, nem sei se é isso que procuras, mas não posso deixar de dizer que há mta mulher neste mundo que se sente exactamente como tu, que chega a uma fase da vida que tudo corre mal (muitas vezes em todas as fases da vida...), parece que o universo conspira contra tudo o que fazemos e todos são felizes, pelo menos aparentemente, e nós continuamos na merda...
Era só mesmo pra dizer que não és a única! Não podes é viver a pensar nesses "obstáculos", aceita-os e depois ultrapassa-os porque se for o caso de mudar, nunca é tarde...nunca é tarde pra fazer o que quer que seja!! ...e certamente nunca é tarde pra ficar a dançar até as 6 da manhã! :)

Boa sorte*
De FB a 3 de Fevereiro de 2010 às 18:52
Deixa lá Puffy, são fases da vida...
Melhores dias virão, tenho a certeza :)

Tchuca*
De allungare il pene a 30 de Abril de 2010 às 11:49
seu blog é muito bom! Eu não leio Português bem, mas eu amo o que você escreve!
De aumentare sperma a 8 de Junho de 2010 às 14:40
Parabéns pelas palavras, muito emocionante. a escrita é um meio de libertação da alma

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